"Enquanto subia os degraus da escadaria, Madalena fazia trejeitos com o rosto e bramia os braços, como quem discute solitariamente, com ardor, com impaciência. Parou a meio e olhou mais uma vez para o rosto enigmático do quadro - ninguém lhe soubera explicar de quem era aquele rosto branco esverdeado, com uns grandes olhos pretos adornados por laivos vermelhos. Os lábios eram igualmente escuros, pequenos e bem delineados. Na verdade, o rosto parecia-lhe uma pêra rocha exangue, sem pestanas, sem protecção, sem vida. Há muito tempo que aquele rosto mascarado a perturbava. Interrompia-lhe os pensamentos e parecia segui-la por toda a casa. Ensaiou aquele olhar inexpressivo enquanto cumprimentava alguns conhecidos. Divertiu-se ao pensar em como seria se aparecesse ao trabalho com o cabelo apanhado e com um rosto branco e lábios negros, sem qualquer sombra de vida. Fez uma careta enquanto estes pensamentos a entretinham."
FSC
Ligações perigosas podem pôr em causa o islão? Opiniões...
"Brincava com as mãos, enquanto esperava que saíssem do quarto. Sempre preferira a mão esquerda, mais marcada pela escrita, pela vida, pelos esfregões de aço. Lá dentro ouvia-se uma discussão quase muda, e ali, perto do elevador de serviço, Madalena já via imagens ficcionadas do que seria o drama de outros, partilhado com ela."
Ficam as imagens de 2011, captadas pela Reuters. Bom 2012! Mais um ano, novas expectativas, outras realidades, os mesmos medos (será?)...a mesma procura de certezas...

O Natal está ainda longe. Todos concordamos. Mas a necessidade de algo bom, caloroso, leva a que aqueles senhores, que infelizmente trabalham em call centers, depois de insistirem com um qualquer produto, terminem a sua chamada com "boas festas, minha senhora". Agora a sério? Pais natais em anúncios televisivos, boas festas ao telefone, e até o ferrero rocher na televisão? Já é Natal? Ou, afinal, ainda tenho de esperar pelo parco subsídio para fazer umas gracinhas humildes nestas próximas festas? Ando perdida...
Quando aquela senhora se sentou à minha frente, percebi que a conversa iria ser longa . Agarrada a um telefone rosa, gesticulava agressivamente enquanto eu apenas tentava perceber quem seria. Tinha-me dito o nome com orgulho, como se este se tratasse de uma palavra-chave que abriria portas. Eu estava estupefacta. Ouvi-a longos minutos, procurei ensaiar um sorriso compreensivo, desculpei-a quando atendeu o telefone- era uma cliente- e só depois comecei a perceber o que pretendia. Queria atirar a sua frustração para cima de alguém, falava da crise de valores, da crise financeira, da crise familiar, da crise da escola e dos políticos corruptos. Desabafou com violência. Depois agradeceu a atenção, guardou o telemóvel e saiu. Pergunto-me, ainda agora, o que pretenderia verdadeiramente aquela senhora? Partilhar a sua fatia da crise?
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