Sorriu ao dizer adeus ao filho, naquela manhã. Pouco faltava para se agarrar ao volante e enfrentar um dia de trabalho, sempre desconsolador. Vestira a blusa do dia anterior, distraída, e ponderou se devia telefonar para o Lar para saber notícias do Luís. Deixou para depois. Há dois dias que ele não falava para ninguém e mal abria os olhos. Pouco já esperava daqueles momentos de plena tortura e contínua agonia.
Tomara um duche rápido e mal se olhara ao espelho. Os cabelos castanhos arruivados, outrora cuidados, estavam baços. Abriu a porta de casa, olhou a claridade lá fora e sorriu com desdém para a correria dos carros.
Deslizou pela rua, contornando os pombos e as pessoas que povoavam aquela manhã cinzenta de inverno. Parou no sinal vermelho, baixou a cabeça à procura dos botões do rádio e logo ouviu uma estridente buzina a quebrar o momento de calma ensaiada dos últimos minutos. Controlou-se e pediu desculpas pelo espelho retrovisor. Encontrou um sorriso largo na jovem que conduzia aquele carro. Arrancou suavemente, ao som da antena 2, estação proibida sempre que estava com o filho no carro. Baixou novamente a cabeça para procurar o cigarro caído na mala e logo ouviu o ruído metálico da chapa e o som incontido da dor.
Micaela Seemann Monteiro, "Encontros nos mistérios negros".
Eram dez horas e, como habitualmente, abriu a porta pelo intercomunicador à mesma senhora de sempre, à espera daquelas folhas com imagens que nunca conseguiu tocar de perto. Aliás, o marido já tinha afixado à entrada do prédio "Publicidade Não! " Mas, desta vez, aparecia um barco e as pessoas diziam adeus com tanta alegria... O que fazer? Não conseguia colocar aquele papel no caixote que tinha comprado na loja do Antonieta. Que fazer? Mais uma coisa para guardar na gaveta das guloseimas pessoais, bem perto do telefone e longe do Manuel. Ele não ligava, eram apenas coisas de mulher desocupada.... Nessa noite viajou em sonhos com a imagens da Agência Aleluia e acordou resoluta.
Não conseguia estender a roupa, pois chovia. Atreveu-se a espreitar sorrateiramente à janela da sala e foi atacada por grossas gotas de chuva, misturadas com o pó do telhado. Sentiu, no entanto, o cheiro do mar e ouviu as gaivotas. Celeste encostou-se à janela fria e húmida para sentir o calafrio daquela manhã. Os carros passavam na rua e ela não reconheceu nenhum. Estranho domingo aquele...
Micaela Seemann Monteiro
A história, as imagens, os enigmas, a contradição, a indecisão. A fatalidade da dúvida.

A Assembleia da República discute nos próximos dias 19 e 20 de Novembro as iniciativas legislativas de todos os partidos sobre o modelo de avaliação de professores e o estatuto da carreira docente.
Micaela Seemann Monteiro
(Ainda é sábado não é?) ![]()
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