Perda, em exercício visual

 

Luísa sai do carro. Caminha devagar, contorna as pedras da entrada da casa e espreita a água do poço. Levanta a cabeça e observa as  trepadeiras na parede. Vira-se para a direita ao ouvir um miado. Desce dois degraus altos, de xisto, e procura o animal. Nada. Volta a subir os degraus e observa a sombra das laranjeiras.

Senta-se no pequeno muro do poço. Sente o vento no rosto, fecha os olhos. Levanta-se e avança pela estrada de terra que contorna a casa. Encalha numa pequena bola de futebol, rota e suja de óleo. Vira o rosto com lágrimas para a estrada de asfalto onde se encontra o seu carro.
Volta a entrar no carro e aproxima-o um pouco mais da entrada da casa. Abre a porta de casa. Caminha sempre em frente pelo corredor, até chegar à última divisão, à direita. Não acende a luz. Senta-se no pequeno colchão. Abre as gavetas vazias. Aproxima-se da janela e observa os autocolantes de jogadores de futebol colados nas portadas de madeira branca. Passa a mão por cima dos dois primeiros que estavam quase descolados. Pressiona com insistência a portada até esta bater na parede com força. Desequilibra-se para a frente e agarra-se à almofada da cadeira de baloiço. Ergue-se direita, com a almofada bordada na mão esquerda. Aproxima-a do rosto. Larga-a rapidamente.
Sai do quarto e segue pelo corredor, sempre a olhar para a porta de casa. Fecha a porta com força. Abre a porta esquerda do carro e observa as marcas na estrada. Aproxima-se do centro da estrada e pisa as linhas de giz branco já esbatidas pelo óleo. Estremece violentamente quando ouve a buzina de um carro. Permanece estática no centro da estrada durante dois segundos. Corre para o carro, agarra-se ao volante e chora enquanto olha pelo espelho retrovisor para a cadeira de criança no banco de trás.
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publicado por imprevistoseacasos às 11:22 | comentar | favorito