Solidão

Naquela tarde voltei novamente à livraria. Já vos tinha contado a minha experiência com o Messias dos três jotas, lembram-se? Pois bem, voltei. Num misto de curiosidade e alguma falta de gosto, observei-o, mais longe, sentada num sofá. Dissertava, como habitual, para uma plateia, menor do que a primeira vez em os nossos olhares se cruzaram levando-o a chamar-me Lúcia, sabe-se lá porquê. Tinha-me pedido desculpas pela falta de atenção, tinha sido atencioso.

Estranhava-o agora. Olhos vidrados, observava nervosamente todas as mulheres, jovens, crianças que por ele passavam na livraria. Precisava de uma namorada, era simples. Fazia anos dia um de Junho, trinta anos, nunca tinha tido uma namorada. Todas fugiam. Na escola tinha sido suspenso, na empresa do pai despedido, na vida dispensado pelas mulheres. Elas que eram tão lindas, imortalizadas desde a Pré-História como deusas-mãe pelos homens, e até davam filhos. Só faltava regar e a colheita funcionava com os outros. E ele? Onde falhava?

publicado por imprevistoseacasos às 09:43 | comentar | favorito