21
Nov 11

Boas festas?

 

O Natal está ainda longe. Todos concordamos. Mas a necessidade de algo bom, caloroso, leva a que aqueles senhores, que infelizmente trabalham em call centers, depois de insistirem com um qualquer produto, terminem a sua chamada com "boas festas, minha senhora". Agora a sério? Pais natais em anúncios televisivos, boas festas ao telefone, e até o ferrero rocher na televisão? Já é Natal? Ou, afinal, ainda tenho de esperar pelo parco subsídio para fazer umas gracinhas humildes nestas próximas festas? Ando perdida...

publicado por imprevistoseacasos às 08:30 | comentar | favorito
05
Nov 11

Como é? Isto endireita-se?

Quando aquela senhora se sentou à minha frente, percebi que a conversa iria ser longa . Agarrada a um telefone rosa, gesticulava agressivamente enquanto eu apenas tentava perceber quem seria. Tinha-me dito o nome com orgulho, como se este se tratasse de uma palavra-chave que abriria portas. Eu estava estupefacta. Ouvi-a longos minutos, procurei ensaiar um sorriso compreensivo, desculpei-a quando atendeu o telefone- era uma cliente- e só depois comecei a perceber o que pretendia. Queria atirar a sua frustração para cima de alguém, falava da crise de valores, da crise financeira, da crise familiar, da crise da escola e dos políticos corruptos. Desabafou com violência. Depois agradeceu a atenção, guardou o telemóvel e saiu. Pergunto-me, ainda agora, o que pretenderia verdadeiramente aquela senhora? Partilhar a sua fatia da crise?

publicado por imprevistoseacasos às 09:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
06
Out 11

O artista fantoche

 

 

A sua desastrada e constante queda (na minha estante de livros) pareceu-me um bom motivo para um olhar atento. Olhei-o, divertida, como já não fazia há anos. Era uma oferta de um querido amigo, uma recordação de Londres. A minha realidade, distinta da que ele conhecia, levou-o a um destino de boneco decorativo.

Encostado pacientemente tinha os seus fios entrelaçados numa teia de difícil penetração. Pernas e braços aprisionados, desgrenhado, despojado de movimento, mas sempre colorido e simpático. O seu enorme laço vermelho iluminava tudo o resto. Olhos desenhados com uma expressão de surpresa, parecia querer dizer algo, não fosse alguém ter-se esquecido de que a sua barba tudo escondia, mesmo agora quando ameaçava descolar do rosto de madeira.

Peguei nele e tentei pô-lo no chão segurando na cruz de madeira que dominava por absoluto os seus movimentos. Observei no seu andar trôpego um sinal de descuido, de esquecimento. A paleta tinha as suas cores esbatidas, apagadas pelo tempo. No fundo dos seus braços flácidos uma das mãos segurava o pincel de madeira, fino, num prolongamento natural de um membro que aguardava pelo puxão, pelo empurrão. As suas calças e sapatos pretos contrastavam com a casaca colorida que tinha vestida sobre a camisa outrora branca, agora amarelecida pelo pó dos livros que tinha por companhia.

Voltei a endireitá-lo na prateleira. Ordenei os seus fios que ainda lhe tolhiam os movimentos e não resisti a ensaiar uma desajeitada dança a dois no soalho da nossa casa.

publicado por imprevistoseacasos às 16:09 | comentar | favorito
08
Ago 11

Desta vez ...

 

Preparara as coisas, as suas obrigações estavam terminadas mais cedo do que o habitual. Estava contente. Ele tinha saído com o lixo que ambos acumulavam todos os dias. Assim que se levantava, ia pesar o saco do lixo e tecia considerações sobre a má gestão das coisas comuns, falava do tempo e exigia o pequeno-almoço pronto quando voltasse com o pão fresco da mercearia. Hoje em dia ela já não corria, pressionada pelo azedume dele. Não, fazia-se difícil e teimava em atrasar aquele ritual de há mais de trinta anos.

Hoje, tinha-se antecipado. Uns familiares tinham-lhe prometido uma boleia para Algarve. Herdara uma casa de família e o marido recusava-se quase todos os anos a ir lá, alegando o alto custo da viagem.

Não. Desta vez dissera não baixinho e preparara-se para as agressões diárias. Ele não lhe batia, apenas gritava e chamava-lhe nomes. Não. Tinha preparado tudo e ela iria sair dali um pouco, ele poderia acompanhá-la, ou então poderia preferir ter menos lixo e o café por fazer todos os dias. Mas chamaria estúpida a quem?

publicado por imprevistoseacasos às 12:25 | comentar | ver comentários (5) | favorito
02
Ago 11

Ikeel

Lembro-me dele mascarado, como se fosse um carnaval antecipado, com uns enormes óculos, cabeleira mais que loira a adornar aquele rosto muito, muito moreno. Fazia parte de uma claque que apoiava os Food & Beverages contra os House Keepers, gritava, pulava e aquele empenho foi certamente decisivo para a vitória da sua equipa, isto porque os homens não se medem aos palmos...

 

Sorria sempre, sorri ainda, estou certa. Tentava perceber o nosso inglês, pausadamente, e ao mesmo tempo viamos aqueles olhos sorrir com as imagens das nossas palavras, tentando perceber o que tínhamos feito durante o dia e o que mais tínhamos gostado. Nunca percebi do que ele mais gostava.

 

Se tivesse havido oportunidade Ikeel teria contado porque foi para a sua ilha, mais cedo do que o previsto, e porque não parecia estar contente com a viagem que apenas duraria cinco horas e meia, num barco veloz, ao contrário dos dois dias e meio que habitualmente durava nos outros barcos que todos tomavam.

 

Há rostos e silêncios que nos ficam na memória.

publicado por imprevistoseacasos às 11:37 | comentar | favorito
02
Jul 11

E se cada um de nós fizesse a diferença?

 

A falta de tempo é inimiga da criação. Ou será a apatia a melhor amiga do desespero? Já não sei.

Mesmo quando assistimos ao semblante alegre, grato, daqueles que foram ajudados, mesmo assim, a amiga do desespero predomina no nosso quotidiano, escondendo-se sob o véu do tempo, dando graças por ser tão querida por tantos.

 

publicado por imprevistoseacasos às 18:55 | comentar | favorito
27
Mai 11

Ainda tenho futuro

Parecia estar bem, equilibrado. No entanto, suava em bica e olhava freneticamente para o relógio. Sorria, abanava a cabeça em sinal de assentimento, ao mesmo tempo que recebia as minhas palavras como se estas fossem um tipo de luz que só ele conhecia. Hesitei diversas vezes antes de lhe mostrar que bastava vê-lo naquele sofrimento para perceber que o equilíbrio ensaiado não resultara.

Reforçou, repetidamente, a importância dos erros cometidos. Apenas queria olhar em frente e evitar aqueles caminhos, dizia. Afinal percebera um dia, em pleno tormento, que ainda tinha futuro. Quando atingisse os dezoito anos já teria muito para contar. Esta era uma forma de futuro.

publicado por imprevistoseacasos às 21:21 | comentar | favorito
07
Mai 11

Olha o drama...

 

"Tanta gente com problemas sérios e tu, assim, sem acção, com pena de ti própria...francamente, Ana!"

 

E pronto, era desta forma que Ana via os SEUS problemas reduzidos a nada pelo seu companheiro.  Eram pequenos para os outros, mas enormes para si, pensava. De tal forma que, por vezes, sentia uma vertigem, um apelo para se deixar ir, cair na rua, em casa, no sofá, na cadeira ou no vazio.  Ora este último apelo era o mais convincente. Como se uma bolha a protegesse de si e, ao mesmo tempo, a afastasse das vozes dos outros, mesmo dos seus filhos. Quando este vazio se dissipava levemente, ainda tentava olhar em volta, numa procura de um olhar amigo. Mas não. Os seus pais, já idosos, choravam sempre que a viam com o rosto fechado, lívido, de quem não descansava, O irmão tinha uma vida ocupada e raramente olhava para os outros. Amigos eram poucos e todos tinham a sua família e os seus pequenos dramas. Ana sentia-se só.

 

Ana gostava da terra, gostava de observar os pássaros, de tratar de animais. Detestava o buliço da cidade, o anonimato egoísta em que vivia. Mas era a única. Aparentemente todos os outros estavam confortáveis nos seus T1s IKEA, nos seus carros citadinos, na sua correria quotidiana.

 

Ultimamente chorava em todo o lado e a bolha que a protegia já apresentava fracturas evidentes. Perguntava-se se era tempo de decidir. 

publicado por imprevistoseacasos às 12:09 | comentar | favorito
21
Abr 11

O coelho da Páscoa, de seu nome FMI

 

O coelho da Páscoa apareceu e só se fala dele. Quase que o podemos sentir a bater à porta de todos os lares portugueses. A confirmar todos, todos os descontos de todas, todas as famílias portuguesas. Mais vale gastar já, porque mais tarde ou mais cedo cortam-nos os subsídios...talvez ainda não o de férias, mas o 13º já não vem...

Atenção às declarações do IRS: os SENHORES DO FMI vão ver uma por uma.

Atenção aos cartões de crédito: os SENHORES DO FMI ralharão com gastos supérfluos...

Enfim, CUIDADO porque eles andam aí...Mesmo que o BE. o PCP e alguém mais finja que o coelho não lhes bateu à porta.

 

Já agora, apesar desta dor, em forma de coelho, que nos assalta, olhemos para o Mourinho e para o Ronaldo e aproveitemos para sorrir de orgulho, sim?

Eu não posso estender este sorriso ao meu Sporting, por razões óbvias...

publicado por imprevistoseacasos às 09:28 | comentar | ver comentários (2) | favorito
05
Mar 11

Observar, observar

 

Observar o outro. Este era o vício mais irresistível de todos para Luísa. Não era algo a que renunciasse, mesmo que alguém com poderes para tal lhe oferecesse uma recompensa vitalícia, infinita. Nada disso. Luísa alimentava-se da observação e respirava melhor sempre que uma impressão se confirmava. Este vício, para muitos perverso, nem sempre a fazia feliz. A confirmação de uma intuição dolorosa era um exercício repetido de dor. Para quê então tudo isto? Luísa não saberia responder. As pulsões dificilmente se justificam e muito poucas vezes se controlam.

publicado por imprevistoseacasos às 11:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito