Tempo (III)

 

Mordeu a maçã, suavemente, com tempo, esquecida da hora e da dor da perda. Nada sentia, apenas importava estar assim, vazia.

Viu a sua imagem reflectida no quadro, com aquela bola disforme em que se tornara a fruta que permanecia na sua mão esquerda, já sem seiva e a amarelar com o tempo.

O tempo. Sem dramatismo pensou no que se tinha tornado aquele domingo que imaginara promissor. Levantara-se de manhã com a certeza de que aconteceria o inevitável, porque já não conseguia pensar de outra forma sempre que o olhava. Não passaria de hoje a sentença de morte daquela coisa que os outros teimavam em chamar de relação. Faz bem ao coração ter alguém agarrado a nós enquanto dormimos, acordar com um rosto colado ao nosso, dizia-lhe o livro que lhe tinham oferecido no Natal. Tudo, tudo acorria à sua mente num turbilhão de sons indistintos, como se a sua orquestra pessoal estivesse em desacordo com a partitura escolhida. Terminara. O tempo já a tinha avisado quando a moleza a atacara repetidamente a propósito de nada.

Indolente, atirou a maçã para a lareira fingida. Sem luz foi andando pelo quarto percebendo que o cheiro a pó a nauseava.

Pegou no telefone e pediu que lhe fechassem a conta em meia hora. Arrumou as roupas espalhadas na cadeira e alisou a colcha da cama que não chegara a desfazer. Olhou o telemóvel na cómoda e decidiu-se...

 

FC.

publicado por imprevistoseacasos às 13:02 | comentar | favorito