Ida à farmácia

 

 

Nesta circunstância, como em outras, convém escolher criteriosamente o local onde se adquire um qualquer produto. No caso de uma farmácia procuro sobretudo um serviço eficaz, pouco pessoal mas eficiente, e não o olhar condoído de quem está preocupado com as nossas maleitas ou, pior, se interroga sobre as nossas adições.

Ontem, numa farmácia muito bem localizada em Lisboa, pensei que as condições estavam reunidas para uma visita sem qualquer problema, recordação, ou qualquer coisa assim.

Entro, espero que a Directora Técnica se levante da cadeira, a custo, e que ponha os óculos que estavam no peito descansados de tanto labor. Percebi que tinha interrompido os seus pensamentos  e por isso tinha estampado no rosto um azedume pouco promissor.

Mostrei-lhe a receita. Pediu-me cartão de benieficiária. Mostei-lhe o cartão. Logo me avisou que o produto estava habitualmente esgotado. Observei que ainda não tinha aquelas máquinas que fazem escorregar os medicamentos quase até às nossas mãos. Não. Nada disso. Andou à procura em várias gavetas, curiosamente, já que estavam etiquetadas com as letras do alfabeto.

Gritou-me que tinha sorte, que afinal tinha duas embalagens guardadas. Esbocei um sorriso. Arrastou-se até ao balcão, com nítidas dores nas costas devido àquele  esforço. Fomos interrompidas pelo telefone. Alguém queria vender um qualquer produto financeiro. Foi simpática e disse que ambos estavam a trabalhar, que não a incomodasse.

Voltou a mim, sem me olhar e arrancou as etiquetas do medicamento como quem arranca a pele a uma batata. Procurou a fita-cola. Identificou o código de barras e  este, relutante, não aparecia no ecran do computador. Engenhocas que não funcionam, imaginei-a a dizer. Mas não. Silêncio. Após várias tentativas disse: "Sabia que era comparticipado. Está com sorte." Desta vez não sorri, não me senti com muita sorte, no momento.

Perguntou-me, claro, se sabia como tomar o medicamento. Respondi-lhe afirmativamente. Era algo crónico, o meu estado. Contive um espirro. Respondeu-me, com ironia, que tudo hoje em dia era crónico. Não respondi. Atirou um saco para cima do balcão para eu por o medicamento lá dentro e avisou-me que tinha pouco trocos. Ignorei-a e dei-lhe o que tinha. Tinha troco.

Fugi apressada da minha irritação que ameaçava trair a minha ensaiada calma, quando ela com um grito me diz:" Fico com o seu cartão?" Agradeci a atenção e finalmente olhei-a. Parecia sorrir, consciente de que tinha ultrapassado a prova.

publicado por imprevistoseacasos às 08:33 | favorito