24
Jun 08

Para o Pedro...imagens de um dia.

 

É escorregadia a memória daquele dia, idêntico a tantos outros. O irregular bloco do meu prédio, o tumulto que desliza pelas ruas no frenesim de um novo começo. Donas de casa, irrequietas, gritam as últimas recomendações a filhos impacientes. É a vida de bairro. Eu procuro, com a rotina esfregada no rosto, a novidade nas horas que se dissolvem como espuma.
 Escorrega-me a memória num dia que se estendeu por uma torrente de bolhas, difusas, de acontecimentos. Nenhum deles particularmente marcante. Foi a correria habitual sob um céu azul onde os seus brancos flocos nos provocam aquela preguiça, proibida, num tempo em que as pessoas se empurram numa multidão de gotas, com um odor amargo, tão característico, na espera por um sinal verde. O mesmo percurso sinuoso, o esforço repetido de chegar a tempo ao destino, a fuga ao toque anónimo, às marcas deixadas nos corrimãos, nódoas esponjosas que se colam nos encontrões regulares da entrada no Metro. Encher os ouvidos com música que não escolhemos, ajudar com uma moeda quem não conhecemos.
Chego ao meu rectangular refúgio com uma acre sensação impregnada em mim. Seca, adormeço numa nuvem branca, só minha. 
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24
Jun 08

Adília, a Bela

 

 

 

A Bela Acordada

 

Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia era bonita, as pessoas diziam-lhe:

- Eu amo-te.

E iam com ela para a cama e para a mesa.

Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:

- Não gosto de ti.

E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.

A mulher pediu a Deus:

- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para

sempre.

Então Deus fê-la feia.

A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar

com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais

gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando

era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais

não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço,

estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a

mastigar.

Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que

pescou o peixe.

Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,

descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a

mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o

peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe

foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe

morreu.

As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era

tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram

chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei

apaixonou-se pela mulher.

- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao

rei.

- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito

tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às

criadas.

E o rei convidou a mulher para jantar.

Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à

mulher quando as criadas se foram embora:

- Eu amo-te.

Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com

uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e

comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:

- Eu amo-te.

Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no

tapete de Arraiolos da casa de jantar.

 

 

In Adília Lopes – OBRA – A Bela Acordada, pag 300, Ed. Mariposa Azul, Lisboa 2001 

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