Excertos III

 

"Sentia-me muito só na altura. Quando a minha mãe me levou nos primeiros dias à escola, só me apetecia desaparecer. Não tinha essa consciência na altura, mas sentia-me incapaz de estabelecer laços com outras crianças. Esperava que ela me fosse buscar e que me levasse à praia no final do dia. Esses eram os bons momentos. O ritual era muito cómico. A minha mãe, a toalha em redor do meu corpo, saiam os calções do uniforme da escola e entravam os calções de banho. Depois era correr, correr e sentir aquela água afastar as recordações do dia. Limpo, voltava a casa, quase feliz, com a mão da minha mãe na minha. Lembro-me dela num desses dias, na praia, Mais do que na escola, ela brincava comigo na praia. Éramos colegas da mesma turma, mas andava sempre com outras meninas a tiracolo. A primeira vez que falámos, na praia, perguntou-me se eu estava doente. Na altura, com os meus nove ou dez anos, olhei para os seus olhos azuis e desatei a correr para o mar. Nunca respondi à pergunta e ela nunca mais insistiu. Limitou-se a correr, igualmente, para a água. Coisas de crianças. Eu realmente não estava, mas sentia-me doente. Depois, eu era muito alto para a idade, seco e branco. Com o passar do tempo, este tipo de doença foi passando. Somos cúmplices até hoje."

 

FC

publicado por imprevistoseacasos às 20:29 | comentar | favorito
tags: