Excertos VI

 

"Procurei as folhas na sala e nada. Temi que ele as tivesse guardado novamente na mala, sem que eu tivesse reparado. Gritei desvairado. Ninguém respondeu. Apalpei todo o sofá, tacteei a mesa da sala, as cadeiras e nada. As folhas não estavam na sala. A minha cabeça rodava num carrossel de angústia. Não conseguiria ler, de qualquer maneira, o conteúdo da notícia, mas a curiosidade picava-me como agulhas afiadas. Esperaria pela manhã para perguntar onde ela tinha guardado as benditas folhas. Acendi a luz da biblioteca. Que pena não poder ler os milhares de páginas que ali tinha em centenas de pastas espalhadas pela mesa e pelo chão da divisão. Sentia-me bem, pela primeira vez, perto das recordações que tantas vezes associara a uma armadilha. Agora apetecia-me pisa-las de uma forma quase suicida. Queria, precisava de conhecê-lo e confirmar, ou não, a imagem que tinha moldado, que tinha construído. Tinha essa hipótese nas minhas mãos. 
A ignorância permite-nos construir um mundo só nosso, longe de uma realidade crua. A distância não significa fuga."
FC
publicado por imprevistoseacasos às 21:29 | comentar | ver comentários (14) | favorito
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