Hoje fui o imprevisto da minha vizinha

Hoje senti-me uma prenda. Logo pela manhã, à saída do meu prédio, deparei-me com a minha vizinha. Com a mesma bata azul, cabelo arruivado puxado para trás, olhar baixo e desconfiado. Disse-me bom dia enquanto andava. Antes de entrar no prédio, volta-se para mim, que tentava passar a rua, e desata a falar do tempo, dos viriatos, da política. Tudo não demorou mais de 10 minutos. Eu tinha pouco tempo, mas aquela ansiedade lembrou-me a solidão em que a senhora vivia há tantos anos, mesmo com a presença daquele marido. Aparentemente, com um marido deprimido há décadas, a senhora não sai de Lisboa, nem sequer para ir à terra. Nem na Páscoa, disse-me ela.

Percebi que aquela nossa conversa, quase monólogo, seria (passe a pretensão) o ponto alto deste dia. Percebi, ainda, que até ao momento, os pontos altos nos dias desta senhora eram as reuniões de condomínio do prédio, com os cabelos arranjados e as televisões com som muito alto a rivalizarem com os assuntos em discussão.

publicado por imprevistoseacasos às 16:17 | favorito