Para o Pedro...imagens de um dia.

 

É escorregadia a memória daquele dia, idêntico a tantos outros. O irregular bloco do meu prédio, o tumulto que desliza pelas ruas no frenesim de um novo começo. Donas de casa, irrequietas, gritam as últimas recomendações a filhos impacientes. É a vida de bairro. Eu procuro, com a rotina esfregada no rosto, a novidade nas horas que se dissolvem como espuma.
 Escorrega-me a memória num dia que se estendeu por uma torrente de bolhas, difusas, de acontecimentos. Nenhum deles particularmente marcante. Foi a correria habitual sob um céu azul onde os seus brancos flocos nos provocam aquela preguiça, proibida, num tempo em que as pessoas se empurram numa multidão de gotas, com um odor amargo, tão característico, na espera por um sinal verde. O mesmo percurso sinuoso, o esforço repetido de chegar a tempo ao destino, a fuga ao toque anónimo, às marcas deixadas nos corrimãos, nódoas esponjosas que se colam nos encontrões regulares da entrada no Metro. Encher os ouvidos com música que não escolhemos, ajudar com uma moeda quem não conhecemos.
Chego ao meu rectangular refúgio com uma acre sensação impregnada em mim. Seca, adormeço numa nuvem branca, só minha. 
publicado por imprevistoseacasos às 23:54 | comentar | favorito