21
Fev 11

Usa a imaginação!

 

O desafio era claro: "a partir da forma ou da cor da caneta, utilizem o objecto como entenderem"... O grupo ficou atordoado, Em pouco tempo subverter algo, assim, sem preparação? Para quê? De repente, um grupo de adultos, acostumados a explicar aos mais novos para que serviam este e outros objectos, sentiu-se sem chão. Uns sorriam e logo utilizavam o objecto como banana, gancho, batom, rolo da massa, etc, etc. Outros fingiam em não perceber o desafio colocado. Não tinham tido tempo para se preparar...Um outro desenhou o mundo, porque era com uma caneta que se podia desenhar o seu mundo. Terá, este, percebido o desafio?

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10
Fev 11

Aquele estranho rapaz...

 

Os seus grandes olhos diziam tudo. Queria conversar, apenas isso. Não garantia que se portasse melhor depois. Não garantia nada. Apenas que ia tentar, que seria corajso quando não conseguisse, e que falaria verdade em qualquer circunstância. Os adultos olhavam para ele, entre a complacência e a desconfiança, e fingiram acreditar naquele estranho e solitário rapaz.

A mãe, esboçou um sorriso, quase verdadeiro, e prometeu que falariam. Não hoje, pois ele tinha deveres e muitos trabalhos. Amanhã no seu dia de folga, quem sabe... O rapaz solitário e estranho, ou nem por isso, só carente, afirmou então que queria ir para casa da avó. Estava a ser corajoso, já falava verdade.

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06
Fev 11

Lembranças

 

Que preguiça, pensar na nossa infância. Perguntam-me: "qual o odor mais antigo de que te recordas?" Fico parada no tempo, sem recordações, sem memória. Esta não reage bem à pressão, à pergunta. Levita algures por aqui, ali ao longe, sem coordenadas, sem morada.

 

Mas o que fazer ao odor a coentros e poejo que me persegue até hoje?

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02
Fev 11

Madalena

 

Sonhava em ser um lápis. Não daqueles que delineavam letras, com formas sempre iguais. Queria antes desenhar, isso sim. Passava horas a pensar no que faria se uma mão criativa lhe pegasse. Pensando bem, o ideal seria ela própria, enquanto lápis, escolher os dedos mais adequados a esta tarefa. Obrigatoriamente ágeis, de unhas aparadas e tratadas, já que esta era uma tarefa de superior importância. Se pensarmos bem, as formas que surgissem no papel viveriam o tempo suficiente para mostrar a possibilidade de uma realidade, com um novo imaginário. Quando lhe perguntavam o que desenharia, este lápis hesitava sempre. Nova realidade significava omitir cenas de guerra, com tanques e pessoas aos gritos, ou gente a falar da crise com olhos de sofrimento e temor. Não. Teria de mostrar que o verde ainda importava, que o azul do seu lápis se podia misturar com o azul do céu, do mar ou do sonho. Pensamentos infantis, pensou. Ainda não estava preparada para mostrar que este lápis desenhava a realidade possível.

publicado por imprevistoseacasos às 08:23 | comentar | ver comentários (2) | favorito
28
Dez 10

Ai, os teatros pessoais

 

Agora, sem hesitações, observa à sua volta e constata em si aquelas lacunas ocultadas durante tanto tempo. Feridas profundas que servem para sustentar um edifício sem janelas. A luz, o ar, o ruído apenas entram quando a distracção ataca, alojando-se no cansaço de quem finge alguma consistência. É tão cansativo aparentar, sempre. Fingir tantas vezes. Fugir do mais-ou-menos, do quase...aquela fadiga de contar as cabeças obedientes. Está quase. Está tão perto de conseguir esquecer-me de si mesma que quase bate palmas quando o dia chega ao fim e, finalmente, se entrega aos chocolates que lhe fazem borbulhas na cara.

 

publicado por imprevistoseacasos às 21:38 | comentar | favorito
22
Dez 10

Deu-me uma fúria

 

O ambiente natalício apela à concórdia e à tolerância, eu sei. Mas quando um energúmeno com um especial talento para embrulhar umas prendas nos diz  - "Vai ter de esperar! Espero que compreenda!" - só porque me atrevi a tossir, enquanto o observava, algo desperta em nós de irreprimível. Não sei como não lhe chamei os nomes todos que me vieram à cabeça. Exigi um pedido de desculpas, ao que ele, teimosamente, me respondeu: "Está bem, já pedi". A quem? Pergunto eu.

publicado por imprevistoseacasos às 09:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
03
Dez 10

Fuga

 

A arte da fuga. O vazio num turbilhão de sentidos. Algo foge sob os pés e ameaça derrubar a certeza. Logo a seguir chega a dor. Fuga. Desta vez traz o sorriso hipócrita da esperança.

 

Engano: a fuga deu as mãos à certeza e instalaram-se na casa ao lado.

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01
Dez 10

Eram eles, os...

 

Ontem "jantei" com  parte de um grupo que nos tem feito dançar com aquela música que todos conhecemos. Irresistível, o ritmo e a inovação. O próprio nome faz-nos sorrir.

 

Ou melhor, estavam no mesmo restaurante. Discretos, com uma inicial dificuldade em abrir a porta, lá conseguiram entrar, três músicos, com um sorriso despretensioso. Despertaram primeiro em mim simpatia e depois curiosidade. Eram eles, claro. Vestidos de uma forma característica, falavam baixo, discretamente, beberam água e foram simpáticos quando se levantaram e sairam.

 

Todos na sala os reconheceram e ficaram a comentar. Quanto a mim , senti-me algo ridícula, pois sempre os imaginei barulhentos e espalhafatosos. Mas ali estiveram, mais discretos do que qualquer um de nós e, sobretudo, com uma simplicidade invejável. Gostei. Apenas espero pelo início da tarde para ouvir uma daquelas músicas que nos fazem mexer ... mas agora ainda não...mais algumas horas de acalmia...

publicado por imprevistoseacasos às 11:37 | comentar | ver comentários (4) | favorito
27
Nov 10

O frio e a procura

 

 

Apetece o quente das letras, o aconchego de tomar notas num novo caderno. Desbravar aquelas ideias dispersas e procurar nelas o nexo que a vida raras vezes tem.

 

Ora, é isso mesmo: o frio empurra-nos para a procura do nexo das coisas. Ao contrário: o nexo encontra-se na procura.

 

Vou continuar por aqui, entretida em brincar com aquilo que o frio desperta: a confusão da procura.

publicado por imprevistoseacasos às 12:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
19
Nov 10

O tempo - sempre ele.

 

As horas tinham passado céleres, sem a mínima consideração pelo o que ela tinha passado. Aquela coisa do tempo começava a irritá-la. Era como uma espada - aguda no trato e fria no final.

 

Desta vez, bateu o pé e fingiu que se ria dele. Fez-lhe intimamente aquele gesto que, por pudor, nunca tinha feito à frente de outros. Agora estava acompanhada e estava demasiado ocupada em fingir desinteresse por aquele fenómeno que corria sem lhe pedir opinião.

 

Percebeu, por fim, que ele sempre a acompanhara. Apenas agora lhe estendera a mão e lhe tocara nas rugas do rosto.

 

publicado por imprevistoseacasos às 17:32 | comentar | ver comentários (6) | favorito