15
Nov 10

Chamei-lhe Josefina.

 

 

O seu rosto lembrava-me um Mimo. Muito branco, olhos grandes, cabelo preto, algo ondulado. Era um rosto de um Mimo. Sorri quando vi aquele corpo frágil ingerir um entrada, mais o couvert, mais o primeiro prato, mais uma sobremesa. Sorri ainda mais quando a vi fechar os olhos sempre que tomava um pouco do copo de vinho tinto que tinha pedido. Era vê-la num puro prazer.

 

Tinha um olhar triste e vazio. Parecia fugir de todos.  Um corpo de 50 anos, sem grande expressão, para além de deglutir um alimento. Olhava para o rio com algum interesse.  De resto, apenas estava.

 

No entanto, escolheu um local hip, onde era raro estar uma mulher sozinha, daquele tipo. Esta é a verdade.

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10
Nov 10

Em branco

 

 

Nada a dizer, apenas aquele torpor do cansaço acumulado. Horas a fio na dispersão da fuga. A desilusão paga-se caro e, quando aparece, apetece trocá-la por uma qualquer pechincha.

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24
Out 10

O alfinete

 

Picou-se nele. O alfinete pontiagudo, rosa, aberto, solto junto ao espelho da cómoda. Distraída, fugiu da dor, pingando grossas, espessas, gotas vermelhas, misturadas com o pó de arroz que tinha acabado de pôr no rosto.

 

Não olhou para si. Apenas pensou no que fazer a seguir. Deitou-se na cama, apagou a luz e observou o tecto do quarto. Pintas brancas fingidas, num largo céu azul, multiplicavam-se num jogo de faz de conta. Tudo tinha sido pensado para que a noite, ou noites, fluíssem numa atmosfera romântica.

 

Levantou-se da cama e tentou atingir aquele tecto etéreo. Queria tocar o azul e misturar aquele puro branco com o vermelho sangue dos seus dedos.

 

Afinal a vida não era isso mesmo?

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22
Out 10

É feliz

 

Anunciou: namoro com uma cabeleireira.

Sabes o que ela tem de especial? Sabe fazer aquilo muito bem. Encanta-me vê-la dedicada ao cabelo de outros. Acaricia e trata o outro, sem se comprometer. Ao fazê-lo apenas cumpre a sua obrigação.  É feliz.

Ao contrário, nós fazemos um pouco de tudo, sem preparação ou talvez vocação para uma única coisa.  Imaginas-te a fazer os mesmos gestos, com os mesmos instrumentos, dias e dias sem conta? Duvido.

 

A culpa disto é do sistema de ensino. Castra-nos quando jovens e banaliza-nos. Nunca ninguém me disse que eu seria um homem de sucesso se fizesse bem uma única coisa.  O sistema engana-nos.

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12
Out 10

Discorda. Que fique claro.

 

Entra suado na sala. Exige explicações. Limpa o suor do rosto e deixa à vista  um semblante quase verde, quase branco. Exige explicações. Repete compulsivamente que precisa de condições para trabalhar. Exige explicações. Aproxima-se para mostrar o peso de uma imagem de revolta.

Pára durante breves minutos. Parece querer ouvir explicações. Assente afirmativamente. Elogia o outro que fala. Discute. Discorda das explicações e exige a verdade. Aquela verdade que criou em sonhos, que ensaiou sozinho enquanto o outro fala.  A conversa terminou. Sente-se suado e exige explicações. Assim, não. Não quer saber de mais nada. Apenas discorda. Que fique claro.

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09
Out 10

A entrevista

 

 

Ramiro esconde a comida dentro da mala. Apetecia-lhe devorar, já, tudo quanto tinha preparado quando partira de Melgaço.

Colhera os pequenos tomates cherry e plantara-os dentro do pão comprado por aquela mãe que escondia as lágrimas atrás dos grossas lentes dos óculos. Ramiro acrescentara o queijo de cabra da quinta e, agora no autocarro, sentia-se perfumado por aquele odor tão familiar.

Preparara-se para uma entrevista de emprego e estava pela primeira vez perante um empregador. Na viagem de autocarro, preparara silenciosamente todas as respostas possíveis. Entre o sono e a gula, em  Ramiro pulsava o entusiamo de deixar para trás a quinta, o verde, a família e a pouca liberdade.

Diria que adorava ler, que gostava de crianças e que estava motivado. Bastaria. Qualquer um, que olhasse para ele, veria aquela genuina luz provinciana. Ficaria contagiado pela sua inocência.

Chega finalmente. Mandam-no entrar.

- Bom dia, seja bem vindo - dizem.

- Porra! Já dizia que cá não chegava...

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11
Set 10

Marés Vivas

 

 

Noite de ontem, marés vivas em S. Pedro do Estoril, com uma paisagem absolutamente nova naquelas paragens. Pelo menos para mim. Caminhar na praia, observando aquilo que a água habitualmente esconde.

Observar a fauna na transparência das águas. Morcegos quase transparentes procuravam alimento, um rato fugia dos nossos passos, um cão pulava nas pedras, indiferente à dor e a lua assistia a tudo, calma e recortada.

 

Foi belo.

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27
Ago 10

Sem alarido

 

Entrou em casa, devagar, empurrada pelas malas e pelas ordens do marido. Era o "pega nisto", "então as chaves?", "onde está a tua cabeça" e "é para hoje?" Não dizia nada, apenas se concentrava na árdua tarefa de agradar, de corresponder.

 

Tinham voltado de uma semana de férias, no Algarve. Ela tinha uma casa de família, fechada há anos e, finalmente, passados mais de vinte anos fechada em sua casa, resolveu dizer que queria lá ir. Até sozinha conseguiria ir. O marido primeiro escarneceu e depois, percebendo a determinação, acabou por concordar. Pena tamanha despesa, em plena crise.

 

Foram silenciosos, cedo, naquela manhã. Voltaram à noite, trazendo a brisa desagradável que sempre os acompanhou: o desencanto.

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25
Ago 10

Diálogo nonsense

 

- Era um chá, por favor.

- Temos vários...

- Pode ser de tília.

. Muito bem.

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- Afinal, estive a ver e não temos camomila...

- Sim, mas e tília?

- Esse temos...

- Então?

- Trago já.

publicado por imprevistoseacasos às 10:55 | comentar | favorito
18
Ago 10

Ida à farmácia

 

 

Nesta circunstância, como em outras, convém escolher criteriosamente o local onde se adquire um qualquer produto. No caso de uma farmácia procuro sobretudo um serviço eficaz, pouco pessoal mas eficiente, e não o olhar condoído de quem está preocupado com as nossas maleitas ou, pior, se interroga sobre as nossas adições.

Ontem, numa farmácia muito bem localizada em Lisboa, pensei que as condições estavam reunidas para uma visita sem qualquer problema, recordação, ou qualquer coisa assim.

Entro, espero que a Directora Técnica se levante da cadeira, a custo, e que ponha os óculos que estavam no peito descansados de tanto labor. Percebi que tinha interrompido os seus pensamentos  e por isso tinha estampado no rosto um azedume pouco promissor.

Mostrei-lhe a receita. Pediu-me cartão de benieficiária. Mostei-lhe o cartão. Logo me avisou que o produto estava habitualmente esgotado. Observei que ainda não tinha aquelas máquinas que fazem escorregar os medicamentos quase até às nossas mãos. Não. Nada disso. Andou à procura em várias gavetas, curiosamente, já que estavam etiquetadas com as letras do alfabeto.

Gritou-me que tinha sorte, que afinal tinha duas embalagens guardadas. Esbocei um sorriso. Arrastou-se até ao balcão, com nítidas dores nas costas devido àquele  esforço. Fomos interrompidas pelo telefone. Alguém queria vender um qualquer produto financeiro. Foi simpática e disse que ambos estavam a trabalhar, que não a incomodasse.

Voltou a mim, sem me olhar e arrancou as etiquetas do medicamento como quem arranca a pele a uma batata. Procurou a fita-cola. Identificou o código de barras e  este, relutante, não aparecia no ecran do computador. Engenhocas que não funcionam, imaginei-a a dizer. Mas não. Silêncio. Após várias tentativas disse: "Sabia que era comparticipado. Está com sorte." Desta vez não sorri, não me senti com muita sorte, no momento.

Perguntou-me, claro, se sabia como tomar o medicamento. Respondi-lhe afirmativamente. Era algo crónico, o meu estado. Contive um espirro. Respondeu-me, com ironia, que tudo hoje em dia era crónico. Não respondi. Atirou um saco para cima do balcão para eu por o medicamento lá dentro e avisou-me que tinha pouco trocos. Ignorei-a e dei-lhe o que tinha. Tinha troco.

Fugi apressada da minha irritação que ameaçava trair a minha ensaiada calma, quando ela com um grito me diz:" Fico com o seu cartão?" Agradeci a atenção e finalmente olhei-a. Parecia sorrir, consciente de que tinha ultrapassado a prova.

publicado por imprevistoseacasos às 08:33 | comentar | ver comentários (10) | favorito