29
Jun 10

O político

 

 

Sentou-se à mesa com a família. Tinha ouvido dizer que aquela barraquinha dos comes e bebes era bem conhecida pelos autarcas. Quem queria ser visto tinha de se sentar exactamente ali. Cumprimentou as pessoas e sorriu sempre que lhe chamavam "Senhor Presidente". Entregou-se, voraz, às sardinhas e à sangria e fingiu ouvir as histórias dos filhos e os lamentos da mulher. Era mais nova do que a primeira, mais bonita, mas não sabia se tinha sido a escolha acertada para as lides políticas. Todos lhe perguntavam pela primeira e, por vezes, ignoravam a segunda.

De qualquer modo, naquele dia, tinha acordado com a firme certeza de que chegaria a Presidente de Câmara. Começaria naquela barraquinha, beberia um copo de vinho com o Francisco, homem do partido, mostraria confiança nas finanças da Junta e despediria alguns funcionários que encontrasse na tasquinha onde habitualmente se reunia com amigos. Mostraria que sabia ser um exemplo para os outros. Iria controlar tudo e gastar o menos possível. Todos saberiam que com aquela função iria perder dinheiro. Sim, porque quando um homem deixa a profissão e se entrega a política,  quando se entrega ao bem comum,  este Homem deixa de pensar em si próprio.

 

FC

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20
Mai 10

Tempo - IV

 

Quando me disseram, fiquei tonta, embriagada pela inesperada violência do acto. Mais, abismada. Mais, atónita.

As autoridades consideraram que eles tinham tido cuidado com as minhas coisas, apesar de tudo.

Ninguém viu, ninguém foi capaz de testemunhar. Nesta aldeia onde todos se conhecem, ninguém fala do desconhecido. Parecia impossível, por isso ninguém queria acreditar. Tudo vazio, ouvia-se pela primeira vez o eco do meu choro em toda a casa.

No fim, apenas falavam do pano amarelo do pó que tinham deixado onde outrora existira um caldeira, de como eles tinham levado tudo, aberto gavetas, baús, memórias, mas tinham tido consideração pela proprietária da casa, estimando alguns haveres.

Agora, sem vestígios palpáveis das minhas memórias, apenas penso na outra casa que recebeu os meus lençóis, edredões, farinhas e ovos.

Amaldiçoo-os a todos.

 

FC

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15
Mai 10

Tempo (III)

 

Mordeu a maçã, suavemente, com tempo, esquecida da hora e da dor da perda. Nada sentia, apenas importava estar assim, vazia.

Viu a sua imagem reflectida no quadro, com aquela bola disforme em que se tornara a fruta que permanecia na sua mão esquerda, já sem seiva e a amarelar com o tempo.

O tempo. Sem dramatismo pensou no que se tinha tornado aquele domingo que imaginara promissor. Levantara-se de manhã com a certeza de que aconteceria o inevitável, porque já não conseguia pensar de outra forma sempre que o olhava. Não passaria de hoje a sentença de morte daquela coisa que os outros teimavam em chamar de relação. Faz bem ao coração ter alguém agarrado a nós enquanto dormimos, acordar com um rosto colado ao nosso, dizia-lhe o livro que lhe tinham oferecido no Natal. Tudo, tudo acorria à sua mente num turbilhão de sons indistintos, como se a sua orquestra pessoal estivesse em desacordo com a partitura escolhida. Terminara. O tempo já a tinha avisado quando a moleza a atacara repetidamente a propósito de nada.

Indolente, atirou a maçã para a lareira fingida. Sem luz foi andando pelo quarto percebendo que o cheiro a pó a nauseava.

Pegou no telefone e pediu que lhe fechassem a conta em meia hora. Arrumou as roupas espalhadas na cadeira e alisou a colcha da cama que não chegara a desfazer. Olhou o telemóvel na cómoda e decidiu-se...

 

FC.

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15
Mar 10

Carrego uma tristeza

 

 

"Carrego uma tristeza" dizia-me ela, "vejo imagens a toda a hora, dos meus irmãos e de mim a dar-lhes banho. Não me consigo concentrar. Ou bem que trabalho e estou ocupada ou então é a mesma coisa há anos."

Olhei para ela, tinha apenas doze anos, e pensei que estranho mundo aquele que não permitia a uma criança, a qualquer criança, descansar, brincar, estudar, nada fazer.  Ofereci-lhe um chocolate quente, ao qual resistiu. Bebericou-o, por fim, com suavidade, enquanto olhava para a janela.

"O meu tio esqueceu-se de mim outra vez. São quase sete horas da tarde e já devia estar a ajudar no jantar."  Tentei sossegá-la, dizendo que estava muito trânsito, nem sempre era fácil sermos pontuais. Apenas respondeu: "Logo quando for ao Culto, peço por ele. Deus perdoa-lhe e eu também".

 

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17
Fev 10

O erro

 

Sentado junto ao computador, ele pensava no seu dia. Tinha visitado todas as páginas e blogs, tinha visto as notícias do dia. Enfim, tinha que começar a trabalhar no tema. Corrigir textos era sinónimo de angústia, de lentidão. Dificilmente avançava quando observava um erro numa folha de papel, na construção de uma frase, na utilização de uma palavra fora do seu contexto. Para ele erro o era como uma poeira que tudo tapava e nele despertava aquela ânsia de tudo arrumar, limpar, esclarecer.

Perguntava-se a sí próprio, inúmeras vezes, o que teria levado as pessoas a colocar no papel palavras se não sabiam pensar, articular uma ideia.

Revia textos e pensava no tema. Muitas coisas escritas e pouco de substantivo tinha sido feito. Gostava de pensar assim. Como se o conteúdo fosse o mais importante. Lia alto as palavras e corrigia. Não gostava do seu tom, não combinava com o seu estado de espírito. Sorria ironicamente sempre que alguém tinha pretensões de ir mais longe. Não podia fingir indiferença.

Ouviu o telefone lá longe e sentou-se na cadeira preta, alta, confortável.Dominou a irritação e atendeu a chamada. Olhou em volta ouviu risos abafados pelo vidro da sala. Pegou no balde e na esfregona e voltou-se para a janela. Um olhar atento também encontraria muitas imperfeições naquele vidro cinzento.

 

publicado por imprevistoseacasos às 10:46 | comentar | ver comentários (3) | favorito
19
Jan 10

Surpresa

 

Sentou-se na cadeira alinhada com a ponta esquerda da mesa. Endireitou a saia e olhou em volta, procurando conhecidos ou apenas rostos curiosos na sala. Respondeu a todas as perguntas, mesmo às sussurradas entredentes por ele. Maternal, serviu pratos, encheu copos e disse que tudo estava muito bem.

No fim da noite resolveu participar nas conversas empurrada pela boa disposição proporcionada pelo vinho tinto, redondo, que tomava. Ouviu-se rir, distendeu os músculos e segurou a cabeça com a mão direita, um dedo no queixo e os outros próximos à orelha. Olhou em frente e estranhou a imagem reflectida no espelho. Reflectia uma imagem estranha de alguém que olhava em frente, vagamente corajosa. Olhou em volta...

publicado por imprevistoseacasos às 20:57 | comentar | ver comentários (3) | favorito
27
Dez 09

A constante ordem desordenada dos sentimentos

 

Tinha sido ali que, outrora, ouvira pela primeira vez o som da sua risada despreocupada. Pulara por cima das mesas, bebera copos de vinho, sentira-se como aquelas personagens dos filmes para adolescentes.

Se eles conseguiam crescer rindo, ela também conseguia. Afundara-se na angústia quando percebeu as cores do amor não (inteiramente) correspondido. Não dava para fazer por medida, por encomenda. Tinha que experimentar.

Pulara as mesas, discutira filosofia fora de horas, tinha ido sozinha para casa, enfrentando o escuro da noite e, agora, passados tantos anos e tantas noites, ainda puxava por si para arriscar as alegrias do amor. 

Fizera uma lista, mas não chegara a conclusão alguma quanto ao que fazer face  à constante ordem desordenada dos sentimentos.

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19
Dez 09

Fado a dois

 

Pela primeira vez ouvi um fado a dois na casa ao lado. Ela canta quando ele sai, ele sai sempre à mesma hora. Nem sempre ela canta, mas ele sai sempre.

Hoje, pela primeira vez, ela não escondeu o som com a entrada dele e ouviram-se duas vozes, a cantar, no meio de tosse e pratos de uma mesa a ser posta.

Parecem quase felizes, aqui ao lado, com a companhia do Alfredo Marceneiro.

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03
Dez 09

Falhados.

 

Levantou-se, irritada, praguejando contra a velha do r/c. Teimava em reunir-se com as amigas, logo pela manhã, rindo com elas, falando das suas coisas. Quem é que queria saber de histórias de velhos? Só outros velhos, claro.

Ela não. Tinha uma vida. Tinha uma filha, um pássaro, a sua música e um imenso desdém por aquele gentinha do prédio.

Cambada de salafrários, pensavam que a enganavam, mas não, não deixava, ainda tinha a sua inteligência intacta, apesar das arrelias dos últimos anos.

Aquele prédio precisava de levar uma volta, começando por aquele casal de sanguessugas falhadas.Que raiva! Agora também os ouvia a descer as escadas e o parvo do marido, conseguia ver pela janela da sala, fraco e mole, ainda tinha ido buscar o carro para a falhada da esposa não se cansar. Infelizes, todos eles!

 

 

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27
Nov 09

Lá no bairro

 

Puxou o fecho do casaco, endireitou as costas e levantou-se.  Piscou os olhos e pensou se estaria a acontecer com ela o que já tinha acontecido com a K no bairro. Na, não senhor, não seria bufa, não seria fraca, não sabia de nada.

Eles olharam-na com condescendência, viram-na a suspirar e apurar o tom de voz que, diga-se de passagem, tinha tremido quando pela primeira vez falou, dizendo o seu nome. Mãos na cintura, voltou a dizer que não os conhecia, não queria problemas, e até tinha vontade de ajudar mas não sabia quem eram, porque roubavam e porque faziam tanto mal. Ela não era assim.

Eles pareceram desistir e recomendaram-lhe juízo. Alguém já os chamava numa outra ocorrência. Dissimulou um sorriso e, com uma ensaiada autenticidade que sempre funcionara em casa, lamentou não poder ser útil. Eles responderam que tinham percebido que ela não conhecia aqueles sujeitos e, por isso, olhando-a nos olhos, apertaram-lhe a mão.

Ao sair não conseguiu disfarçar um sorriso de antecipação: chegaria ao bairro e iria ter com eles, contaria como tinha sido valente, como mentira tão bem. Talvez assim acreditassem que ela merecia uma oportunidade.

publicado por imprevistoseacasos às 21:06 | comentar | ver comentários (2) | favorito