22
Nov 09

Aquela manhã

 

Sorriu ao dizer adeus ao filho, naquela manhã. Pouco faltava para se agarrar ao volante e enfrentar um dia de trabalho, sempre desconsolador.  Vestira a blusa do dia anterior, distraída, e ponderou se devia telefonar para o Lar para saber notícias do Luís. Deixou para depois. Há dois dias que ele não falava para ninguém e mal abria os olhos. Pouco já esperava daqueles momentos de plena tortura e contínua agonia.

Tomara um duche rápido e mal se olhara ao espelho. Os cabelos castanhos arruivados, outrora cuidados, estavam baços. Abriu a porta de casa, olhou a claridade lá fora e sorriu com desdém para a correria dos carros.

Deslizou pela rua, contornando os pombos e as pessoas que povoavam aquela manhã cinzenta de inverno. Parou no sinal vermelho, baixou a cabeça à procura dos botões do rádio e logo ouviu uma estridente buzina a quebrar o momento de calma ensaiada dos últimos minutos. Controlou-se e pediu desculpas pelo espelho retrovisor. Encontrou um sorriso largo na jovem que conduzia aquele carro. Arrancou suavemente, ao som da antena 2, estação proibida sempre que estava com o filho no carro. Baixou novamente a cabeça para procurar o cigarro caído na mala e logo ouviu o ruído metálico da chapa e o som incontido da dor.

 

 

publicado por imprevistoseacasos às 11:50 | comentar | ver comentários (4) | favorito
17
Nov 09

Viagens Aleluia

 

 

Eram dez horas e, como habitualmente, abriu a porta pelo intercomunicador à mesma senhora de sempre, à espera daquelas folhas com imagens que nunca conseguiu tocar de perto. Aliás, o marido já tinha afixado à entrada do prédio "Publicidade Não! " Mas, desta vez, aparecia um barco e as pessoas diziam adeus com tanta alegria... O que fazer? Não conseguia colocar aquele papel no caixote que tinha comprado na loja do Antonieta. Que fazer? Mais uma coisa para guardar na gaveta das guloseimas pessoais, bem perto do telefone e longe do Manuel. Ele não ligava, eram apenas coisas de mulher desocupada.... Nessa noite viajou em sonhos com a imagens da Agência Aleluia e acordou resoluta.

 

 

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15
Nov 09

A Celeste neste domingo

 

Não conseguia estender a roupa, pois chovia. Atreveu-se a espreitar sorrateiramente à janela da sala e foi atacada por grossas gotas de chuva, misturadas com o pó do telhado. Sentiu, no entanto, o cheiro do mar e ouviu as gaivotas. Celeste encostou-se à janela fria e húmida para sentir o calafrio daquela manhã. Os carros passavam na rua e ela não reconheceu nenhum. Estranho domingo aquele...

 

 

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05
Out 09

Maria Celeste

 

Tinha desistido de limpar o chão da cozinha. Ele que o limpasse! Doíam-lhe as costas, andava com azia, tinha acordado com a lembrança de que o Nelson não tinha conseguido beijar a Daniela na noite anterior. O capítulo de hoje era mais tarde por causa do futebol, por isso ainda conseguia ver o novo concurso no canal 1.

Enfim, sentada no sofá da sala, com o pano do pó amarelo na mão direita, apetecia-lhe fechar os olhos, só um pouco, antes que ele chegasse e perguntasse pelo almoço. Tinha pensado num cozido à portuguesa, mas sentia-se cansada demais. Faria antes um arroz de pato. Pronto estava decidido.

Levantou-se e ajeitou o quadro da sala. Tudo lhe parecia velho e cinzento. Não resistiu e pôs no gira-discos o velho álbum do Marceneiro. Agora sim, a alegria tinha voltado por uns minutos a casa.

 

 

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16
Jul 09

O engano

 

Afinal aquele sorriso paternal, meigo, quase amoroso, escondia um jogo do "quem engana mais", tão habitual que me esqueci de que podia acontecer ali, naquele momento, enquanto ambos olhávamos para a fotografia da criança. O  seu tom de pele já lhe tinha trazido muitos dissabores, por isso tentaria poupar a sua filha das marcas que ele próprio carregava desde muito cedo. Estava decidido a contornar este e outros obstáculos, faria tudo o que fosse necessário, "com toda a franqueza." Cedo omitiu, dobrou-se, carregou consciências e ódios antigos, engoliu a franqueza, pintou a verdade, empurrou a consciência e sorriu embriagado para a vitória.

 

publicado por imprevistoseacasos às 20:09 | comentar | favorito
15
Jul 09

O lenço

 

Ofereceu-me o lenço e deu-me um abraço. Disse-me que agora a tarefa estava nas minhas mãos, com as suas coladas, como se secretamente orasse. Estremeci de dúvida: enquanto me desejava felicidades, senti o aperto da incerteza e o amargo do desconforto, tendo o lenço como prova  do mistério que ronda os nossos dias.

publicado por imprevistoseacasos às 18:34 | comentar | ver comentários (3) | favorito
08
Jul 09

As fériasque não chegam...

Correr, correr, correr. Passamos os dias com as tarefas à frentes dos olhos e com a vontade de fazer aquele gesto que o Zé certamente faria, sem coragem para dizer, chega, não sou capaz. ou pura e simplesmente fingir que não percebemos, ou dizer "are you talkin' to me?"

Enfim, aumentamos o som do rádio, cantarolamos, cortamos o cabelo, sorrimos para o espelho e julgamos que tudo passa, que estamos bem... Até que alguém comenta, "estás com olheiras, andas mesmo cansada...". 

publicado por imprevistoseacasos às 12:37 | comentar | ver comentários (6) | favorito
25
Jun 09

A dança

 

Levantou-se de manhã, disfarçando o nervosismo. Acordou perto das seis da manhã e, como era habitual, tinha os dois irmãos já acordados na cama ao lado. Brincavam e diziam que tinham fome.  Já não tinha tempo para lhes dar um banho rápido e ainda tinha que limpar a cozinha depois do pequeno-almoço antes de os levar para a escola.

Disse um bom-dia rápido aos tios com quem vivia e pôs a mesa. Enquanto esperava pelas torradas ensaiava uns passos de dança e agradecia mentalmente os aplausos que ouvia.

Acordou do sonho com os gritos dos irmãos e dos tios. Limpou a cozinha, fez as camas, arranjou-se no quarto, organizou as mochilas dos irmãos sem olhar para a sua, viu quanto dinheiro tinha para o seu almoço e dos irmãos e saiu de casa de mão dada com ambos. Voltou a casa e resolveu guardar na mochila um lenço fino que a mãe lhe tinha dado há muitos anos quando viviam juntos. Ainda sentia a suavidade do lenço no rosto quando a mãe lho colocou pela primeira vez.

Andou vários minutos com os irmãos deixando-os na escola primária, seguindo para a sua de autocarro.  Ainda se sentia nervosa quando entrava pelos portões da escola, de cartão magnético na mão.

Hoje vários colegas correram até ela, perguntando se estava nervosa. Limitou-se a sorrir dizendo que não, que não. Pediram-lhe ajuda nos passos mais difíceis e ela disse que sim, que era fácil, bastava fechar os olhos e sentir a música.

No final do dia, depois de ter ouvido tantos aplausos, ter bebido coca-cola, comido bolo, gelados e outras guloseimas, Amália guardou o lenço na mochila e perguntou que horas eram à professora. Escondeu a tristeza num abraço forte e saiu da escola em direcção ao seu quotidiano.

Para o ano não sabia se voltaria à escola. Era quase uma senhora e por isso brevemente casaria com um rapaz que já lhe estava prometido há anos.

publicado por imprevistoseacasos às 08:50 | comentar | ver comentários (6) | favorito
03
Jun 09

A alegria colorida do jardim

 

 

Dobrou-se com um sorriso, observando as plantas. Eram verdes, amarelas (adorava florzinhas amarelas), roxas, brancas, sarapintadas e conviviam com outras maravilhas da natureza, no pequeno jardim.

Afastou as folhas da laranjeira, com as mãos sujas de terra, pintando-as de castanho . Falou com elas, pediu-lhes frutos, alegria, sombra no jardim. Biscou o olho à figueira, altiva, no seu vaso azul, provocando inveja ao limoeiro. A casinha para os pássaros da vizinhança baloiçava num pequeno ramo, como que aderindo à conversa. Todos queriam a atenção dela, até as folhas caídas roçavam os seus pés.

Naquela tarde, final de dia de trabalho, cheirava a jardim, o som das plantas ecoava, abafando cri cris e piu pius, rendendo-se à torrente fresca de gotas derramadas, como uma carícia, ou quem sabe num agradecimento, pela alegria colorida daquele jardim.

publicado por imprevistoseacasos às 20:04 | comentar | ver comentários (7) | favorito
27
Mai 09

Andava perdido...

 

Desta vez andava perdido na rua, sem entrar na livraria. Parecia uma dança que só ele conhecia. Sapatilhas brancas, jeans, camisa castanha desabotoada três botões, cabelo nos olhos, escorrido, castanho, mal cortado. Transpirava, falava alto e aproximava-se das pessoas que entravam na livraria, com perguntas estranhas, do tipo: " já fizeste filhos?", "és feliz?", o que és?", e muitas outras que levavam à  corrida precipitada para dentro da loja.

Não entrei, apenas observei de longe aquele homem, culto, doente, tão só.

Tenho escrito, aqui, sobre ele. Não imagino o que estará a fazer agora, mas sei que anda com um livro na mão, talvez o Ulisses...

publicado por imprevistoseacasos às 15:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito