24
Mai 09

Os domingos no Alentejo

 

 

Devagar, acordamos os sentidos com  o trinar dos grilos e dos pássaros misturado com o som dos escapes dos carros. Preguiça em agitar o dia. Voltamo-nos para o outro lado, sentimos o cheiro a café e, ao longe, o som algo roufenho do rádio. Água, chuveiro, saltos na madeira. Telefone, e o barulho de panelas. É domingo, almoço em família, casa colorida com os sons dos nossos e com os odores da região. Na doce mistura dos coentros com os alhos, dos queijos no pão, dos enchidos, do vinho, erguemo-nos na expectativa de que o dia sempre comprido, lento, dengoso, nos preencha com o vagar alentejano.

 

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19
Mai 09

Solidão

Naquela tarde voltei novamente à livraria. Já vos tinha contado a minha experiência com o Messias dos três jotas, lembram-se? Pois bem, voltei. Num misto de curiosidade e alguma falta de gosto, observei-o, mais longe, sentada num sofá. Dissertava, como habitual, para uma plateia, menor do que a primeira vez em os nossos olhares se cruzaram levando-o a chamar-me Lúcia, sabe-se lá porquê. Tinha-me pedido desculpas pela falta de atenção, tinha sido atencioso.

Estranhava-o agora. Olhos vidrados, observava nervosamente todas as mulheres, jovens, crianças que por ele passavam na livraria. Precisava de uma namorada, era simples. Fazia anos dia um de Junho, trinta anos, nunca tinha tido uma namorada. Todas fugiam. Na escola tinha sido suspenso, na empresa do pai despedido, na vida dispensado pelas mulheres. Elas que eram tão lindas, imortalizadas desde a Pré-História como deusas-mãe pelos homens, e até davam filhos. Só faltava regar e a colheita funcionava com os outros. E ele? Onde falhava?

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15
Mai 09

Os três Jotas

Pois é, ontem numa  livraria de Lisboa, enquanto bebia um café e folheava um livro, fui verdadeiramente "assaltada" por um Messias dos Jotas. É verdade. Procurou que alguém o ouvisse e nada. mas insistiu. .. Errei quando esbocei um esgar, quase sorriso quando disse que era o Garcia Lorca reencarnado. Errei novamente quando o olhei, nos olhos, quando disse que sentia a Janis Joplin ali, na sala. Aliás, falou na profecia dos três jotas. A Joplin, J. Hendrix e J. Morrison. Todos conheceram Lorca. Logo, todos conheceram o nosso Messias. Ameaçou continuar com outro tema. Pegou no Ulisses, levantou-se e falou um pouco mais alto, demasiado perto de mim.

Levantei-me de supetão, mas voltei a errar quando lhe desejei boa tarde. Acompanhou-me até à porta da livraria e disse-me:" Adeus Lúcia. Desculpa não te ter dado atenção".

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03
Abr 09

Perda, em exercício visual

 

Luísa sai do carro. Caminha devagar, contorna as pedras da entrada da casa e espreita a água do poço. Levanta a cabeça e observa as  trepadeiras na parede. Vira-se para a direita ao ouvir um miado. Desce dois degraus altos, de xisto, e procura o animal. Nada. Volta a subir os degraus e observa a sombra das laranjeiras.

Senta-se no pequeno muro do poço. Sente o vento no rosto, fecha os olhos. Levanta-se e avança pela estrada de terra que contorna a casa. Encalha numa pequena bola de futebol, rota e suja de óleo. Vira o rosto com lágrimas para a estrada de asfalto onde se encontra o seu carro.
Volta a entrar no carro e aproxima-o um pouco mais da entrada da casa. Abre a porta de casa. Caminha sempre em frente pelo corredor, até chegar à última divisão, à direita. Não acende a luz. Senta-se no pequeno colchão. Abre as gavetas vazias. Aproxima-se da janela e observa os autocolantes de jogadores de futebol colados nas portadas de madeira branca. Passa a mão por cima dos dois primeiros que estavam quase descolados. Pressiona com insistência a portada até esta bater na parede com força. Desequilibra-se para a frente e agarra-se à almofada da cadeira de baloiço. Ergue-se direita, com a almofada bordada na mão esquerda. Aproxima-a do rosto. Larga-a rapidamente.
Sai do quarto e segue pelo corredor, sempre a olhar para a porta de casa. Fecha a porta com força. Abre a porta esquerda do carro e observa as marcas na estrada. Aproxima-se do centro da estrada e pisa as linhas de giz branco já esbatidas pelo óleo. Estremece violentamente quando ouve a buzina de um carro. Permanece estática no centro da estrada durante dois segundos. Corre para o carro, agarra-se ao volante e chora enquanto olha pelo espelho retrovisor para a cadeira de criança no banco de trás.
FC
 
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28
Nov 08

O terror lá fora

 

Hoje de manhã, enquanto atravessava bem cedo, de carro, o Terreiro do Paço, vi aquele rio agitado, os cacilheiros confundidos com o azul escuro do céu, ao longe, as pessoas à espera do elevador de acesso ao metro, a chuva a irritar os apressados e os contemplativos, os carros a derrapar pelas estradas encharcadas, o relógio que não parava, o sábado que não chegava com a promessa de um dia suplementar e optei por desligar o rádio. Falava-se do terror na Índia, da violência gratuita disfarçada de uma qualquer causa religiosa baseada na intolerância. Optei por desligar aquele jogo para computador, onde um qualquer pode metralhar o próximo, porque sim. Apenas porque o destino o colocou ali. Desliguei e entreguei-me ao pacificador som dos cacilheiros e à brisa do Tejo.

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10
Out 08

a minha vizinha II

 

 

Pois é...algo se passa aqui ao lado. Há uns tempos para cá, sai sozinha, equilibrada nos seus sapatos com tacão, cabelo arranjado, com um ligeiro batom nos lábios secos. Tranca a porta, acende a luz, quer seja dia, quer seja noite, e lá vai ela todos os domingos, certamente à missa, sozinha. Já vos contei que este ano já foi à terra arrastando, finalmente, o seu marido, sempre contrafeito. Passados anos, esta mulher, já madura, espera nestes últimos dias, que o X saia, que vá dar o seu passeio, levando na mão o saco do lixo, diz-lhe que se demore, que beba café, que lhe dê, a ela, descanso e uns minutos com o Alfredo Marceneiro. Esta tem sido a sua companhia predilecta dos últimos dias. É verdade. Abre as janelas da marquise e ouve-se o fado vadio na rua. A minha vizinha dá-nos música e até já recebe visitas de outra vizinha do r/c. Algo mudou no íntimo desta madura mulher...

 

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13
Set 08

A minha vizinha

 

Hoje acordei com a voz dela, gritando "Sempre vem D. Gina?"Estremeci, primeiro por causa do som de cana rachada, depois porque a minha vizinha, afinal, conhecia a alegria de convidar alguém para alguma coisa. Vi-a depois, já no passeio, curiosamente sem bata e com o cabelo mais ondulado do que o habitual. Algo nela tinha mudado desde a última vez em que trocámos algumas palavras. Contou-me. Tinha saído de Lisboa, tinha ido à terra, quase uma semana. "Veja bem, convenci-o a sairmos daqui uns dias. Já há vários anos que não saia deste bairro!" Estava diferente, falava-me olhos nos olhos e hoje até tinha, certamente, passado mais tempo ao espelho enquanto tinha um discreto e absolutamente novo batom nos lábios.

 

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31
Ago 08

Poupar?

 

Ontem, mas uma vez, parei durante uns segundos para contar o número de carros que se encontravam em fila de acesso à bomba de gasolina do Jumbo, em Alfragide. Contornavam toda a rotunda e, com os sons dos rádios bem altos, pareciam perfeitamente convencidos e quase felizes pela opção de poupar uns euros, caso enchessem o depósito por inteiro. Com dois ou três euros sempre se podem fazer milhentas coisas ...Confesso que não percebo. O tempo despendido, em fila, num sábado à noite...qual é o atractivo de tudo isto? Não pode ser apenas a poupança...o que move as pessoas para passarem ali todo aquele tempo? Ontem, pelo menos, sempre tinham como banda-sonora o relato do jogo benfica-porto...

Diga-se ,de passagem, que para esta sportinguista o resultado foi...muito simpático

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18
Jul 08

Hoje vi

 

Hoje vi um casal sem idade, numa livraria, na baixa. Ambos vestidos de branco, pareciam jovens num primeiro olhar. Segui-os e só depois reparei que eram de meia idade. Com as rugas, corpos e cabelos de meia idade. Meia idade, dá jeito para catalogar os não jovens e  os, ainda, não idosos.  Afinal... todas as pessoas têm idade... Ele era mais baixo, olhos muito azuis, tinha barriga, calças de algodão apertadas e casaco ao ombro, também branco. Ela muito branca, tinha cabelo quase cinza, calças e camisa de linho branco, muito magra, esguia, usava string tanga. Disfarcei o sorriso trocista e senti-me ridícula.  Não se largaram um minuto e conversavam em silêncio.

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11
Jul 08

D. Cecília

 

Perdida em pensamentos nem reparei que a D. Cecília tinha entrado, silenciosamente. Junto ao balcão estava à espera da sua habitual empada de galinha na ansiedade de aproveitar a hora de almoço. Sempre que me lembro dela penso no prazer com que ela tritura uma empada, dia após dia. Enfim, naquele café de bairro as personagens não mudavam com frequência. O mesmo não se pode dizer dos seus penteados. Aqui a D. Cecília tinha uma palavra a dizer. Lavava, esfregava, amaciava os cabelos das senhoras há tantos anos que, calculo, a sua fama já terá chegado a outras cabeças de Lisboa. Ela, no entanto, mantinha-se fiel aquele lugar. O mesmo se podia dizer do seu penteado. A mesma cor acobreada, onde se notava um especial cuidado com a fraca ondulação do seu cabelo. Curto, crespo e firme, certamente um resultado L’Oréal, conforme testemunhava a sua imaculada bata. No entanto, com o passar dos anos era visível a dificuldade em manter o mesmo vigor. No alto da sua cabeça era notória uma clareira, sem ondulação, e a cor tingida não tinha chegado, ou já tinha partido. Observando com atenção era possível inferir que a D. Cecília já tinha a sua quota-parte de cabelos brancos enraizados.
Acredito que ela já notara o meu olhar curioso visto que há algum tempo para cá que me cumprimentava, sempre que nos encontrávamos. Naquele dia, no entanto, estava tão distraída que nem me tinha apercebido do que me rodeava. Noto agora que a D. C. estava particularmente nervosa. Não gostava de gritos e, no momento, tudo gritava. A televisão por uma antena, um mendigo por uma moeda e um casal por café. Não me atrevi a pedir a conta pois teria também que gritar. Optei, por isso, por me levantar e procurar com um sorriso a redonda empregada Cabo Verdiana. Tudo quanto fazia parecia pleno de ritmo. Cantou-me a conta com uma voz jovem e olhar maternal, abafando, com a sua harmonia, os gritos dos outros.
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